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Quando a porca é mais sabida que o dono

Uma história de meia fé, avareza e confusão


POR MÔNICA PIMENTEL

Arte de O santo e a porca (Foto: Divulgação)

Em diálogos ambíguos e divertidos, Ariano Suassuna dá vida aos noivados mais complicados e arretados da literatura brasileira. O santo e a porca é uma peça teatral brilhante, publicada pelo paraibano em 1957 e, apesar de 62 anos desde o lançamento, ainda é uma trama extremamente contagiante e divertida. A narrativa é composta principalmente por conversas que começam e terminam com a falsa certeza de que todos sabem do que se é discutido e acordado. Nessa mistura espontânea de assuntos nos mesmos diálogos, Caroba, a única a dar conta de tudo que acontece na casa de Euricão Engole-Cobra, organiza todos os problemas de lá, sempre tentando tirar proveito de seus arranjamentos.
A obra começa com a chegada de última hora do vizinho de Euricão, Eudoro Vicente, o que o incomoda bastante pois que este não queria recebê-lo, achando que o viajante viesse lhe pedir dinheiro, apesar de ter mais posses que o anfitrião. E a confusão se inicia daí porque ele, na verdade, chega querendo pedir a mão da filha de Euricão, Margarida, a qual namora escondida com o filho de Eudoro, que ali vive disfarçado, Dodó Boca-da-Noite. Caroba, a empregada enxerida, que já entendeu toda a confusão, inclusive sua oportunidade de vantagem no meio, vai lidando com Euricão e sua porca sagrada, Seu Eudoro e a vontade de não mais ser viúvo, e Dodó e Margarida com seu desejo de casar.

O dono da fazenda, Seu Euricão, oscila durante toda a peça entre sua fé em Santo Antônio e sua adoração à porca de madeira cheia de dinheiro. A todo momento ele teme ser roubado, enganado ou até que lhe peçam dinheiro e, por isso, é obsessivo e paranoico em relação a seus bens. Assim, a obra é uma crítica cômica à hipocrisia e, principalmente, à avareza que assola grande parte do povo brasileiro, tenha ele recursos ou não; diga ele ter recursos ou não.

O dinheiro e o dizer "não ter dinheiro" para se fazer de coitado é o que sustenta basicamente a obra. Por dinheiro todos os personagens mentem em algum ponto da história e durante toda ela, ele é a base dos problemas.

Dividida em 3 atos, a peça O santo e a porca é um livro cuja leitura é extremamente fluida (em parte por causa do gênero textual) e cativante (por mérito exclusivo do autor). Se houver tempo, em uma sentada se termina a leitura e em qualquer interrupção externa que lhe questione o que tanto se lê, torna-se impossível conter o sorriso ao falar dessa trama.

Deslumbrar da sagacidade dos diálogos tronchos no teatro deve ser uma oportunidade sem igual e eu não sei se me será possível o privilégio um dia, mas só a leitura dessa presepada maravilhosa e inteligente com certeza já vale muito a pena!

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