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O Menino e o Mundo: aos olhos de uma criança

Por Paulo Prado


Quando deixamos de lado a infância, a imaginação, a criatividade e passamos a nos inserir em um mundo de responsabilidades, nos tornamos adultos, perdemos nossa inocência relativa ao mundo e ele não nos aceitará se ficarmos presos a ingenuidade de um universo de inculpabilidade. Alê Abreu quebra esse paradigma no filme O Menino e o Mundo; ele consegue provar que, sim, é possível estabelecer uma relação harmoniosa entre a criança que há muito tempo foi abandonada em meio a boletos para pagar e decepções que tornam o ser humano mais rígido consigo e com o espaço em constante transformação ao seu redor. 

É perceptível que conhecimentos em artes plásticas não foi suficiente para a composição da produção da Filme de Papel - a essência está em se tornar criança novamente. Os traços irregulares, as brincadeiras com aquarela, a mistura de cores que impressiona, o uso constante do espaço negativo e algumas canetas Bic a mais constroem um cenário 2D com uma profundidade cativante e exclui O Menino e o Mundo da cultura de massa, transformando-o em uma legítima obra de arte. Seu propósito está em nos incentivar a ver novamente o mundo a partir dos olhos de uma criança; somos expostos a um mundo demasiadamente abstracionista, complexo e que o entendimento se desperta durante a aventura que se segue. 


O universo se mostra refletido e tudo passa a ser entendido de trás para frente. Construído em sua totalidade como um filme “mudo”, O Menino e o Mundo tem como essência, além de toda a sua construção visual, claramente, a sua trilha sonora que vai muito além de uma sonoridade de caso. Ela transporta o espectador diretamente para dentro do filme com seu português pronunciado em reverso – um novo idioma – desperta emoções para momentos extremamente fascinantes, comoventes. 

A observação da vida adulta a partir dos olhos infantilizados nos aprisiona em uma angústia quase sem fim, tudo é feito para se sentir e refletir a partir de onde saímos até onde iremos chegar e em qual momento iremos nos perder e esquecer quem somos. Pego em meio a um choro de boca calada. 

A vida nos desloca por fases quase que imperceptíveis e o longa consegue impactar ao decompor cada uma delas e deixar claro todas as críticas diretas a um sistema que obriga a sobrevivência a ele e faz esquecer que devemos viver. A constante disputa entre a liberdade de expressão e a repressão, matando a esperança, cada um com seus objetos de guerra – a arte de um lado e as armas e apoiadas pela cultura midiática de outro – deixa claro todas as referências diretas a Hannah Arendt e Friedrich Nietzsche. Mas esperança é sempre uma fênix. 


Se antes me perguntassem se algum filme poderia dar certo sem um roteiro previamente elaborado, minha resposta certamente seria não. Alta e clara. Alê Abreu certamente não concordaria comigo, já que todo o roteiro do filme surgiu com sua elaboração em andamento. Surge uma aptidão em procurar e achar a origem, o significado, a motivação e a complexidade de personagens que ainda não se sabe o papel deles em meio a tudo e admirável a possibilidade de encaixá-lo perfeitamente no universo. 

A pretensiosidade não chega nem perto quando nesse momento afirmo que encontramos, finalmente, nosso pequeno príncipe. Assinalado, nascido a partir da cultura brasileira, cabe a nós adotá-lo para que a inocência não caia no esquecimento, para que ela transforme o mundo, as pessoas em indivíduos cada vez melhores e desperte conceitos cada vez mais relevantes à vida – airgela adiv aigrene açrof roma zap edadrebil zov edatnov. E tudo isso aos olhos de uma criança.

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